
No início da vida, quando ainda somos novos, tudo o que nos guia são os instintos mais primitivos. Não sabemos como nos comunicar, tampouco temos desejos ou sonhos. Apenas buscamos aliviar as necessidades físicas que nos afligem no momento.
Não desejamos, não planejamos e nem sequer conseguimos pensar no futuro, pois ainda não compreendemos o que significa a passagem do tempo. Vivemos apenas o agora, orientados pelas sensações imediatas e pelos impulsos instintivos.
Naipe de Ouros
Se pensarmos no elemento Terra, representado pelo naipe de Ouros, tudo faz sentido. A atenção está voltada exclusivamente às necessidades básicas e físicas — o foco está no “ter”.
A curiosa inclinação para acumular ou colecionar coisas revela um olhar ainda preso ao plano material.
O naipe de Ouros, nesse sentido, se assemelha a uma criança que começa a se reconhecer no mundo e, ao perceber que pode possuir, deseja ter para si. É o início da consciência voltada à matéria, ao concreto, ao tangível.
Naipe de Espadas
Então, crescemos um pouco e chegamos à adolescência. Os instintos básicos passam a ser domados, tornando-se quase automáticos, o que libera espaço na mente para que possamos nos voltar a questões mais abstratas.
É quando surgem os pensamentos lógicos, as ideias e a necessidade de compreender o mundo ao nosso redor. Passamos a questionar o porquê das coisas.
No naipe de Espadas, o foco passa a ser o “ser”, pois começamos a buscar nosso lugar no mundo. Assim como acontece com os adolescentes, essa energia mental carrega um amadurecimento inicial, ainda instável, mas essencial no processo de construção da identidade.
Naipe de Copas
Chegamos, então, à maturidade representada pelo naipe de Copas. Neste ponto da jornada, já dominamos o “ter” e compreendemos a nós mesmos como seres pensantes. Começamos, então, a considerar não apenas nossos próprios sentimentos, mas também os sentimentos dos outros.
A empatia que nasce dessa maturidade é uma sensibilidade consciente — uma capacidade de estar presente, inteiro em si mesmo. Estar com o que temos, com o que pensamos e, sobretudo, com o que sentimos no momento.
Esse é o estágio em que o ser humano se torna, de fato, mais completo. Mas ainda há algo além:
Naipe de Paus
Esse estágio de evolução surge quando percebemos que nada em nossa vida é permanente. As posses do naipe de Ouros, as ideias do naipe de Espadas e até mesmo os sentimentos e desejos representados por Copas — tudo é passageiro, tudo se transforma.
É nesse momento que começamos a aprender o significado do ficar — não no sentido de permanência física, mas como uma compreensão sutil de que existir, por si só, é o que realmente importa.
Essa consciência é tão abstrata e ampla que, muitas vezes, sequer conseguimos alcançá-la plenamente enquanto estamos encarnados.
A percepção desse simples ficar, livre do ser e do estar, pode nos causar estranhamento. Afinal, ela exige que nos voltemos à infinitude do universo e tentemos compreender sua vastidão, o que inevitavelmente nos convida a abrir mão do ego e de todas as certezas que ele construiu.
Um Resumo Filosófico
O texto traça uma jornada simbólica do desenvolvimento humano a partir dos quatro naipes do baralho como representações de diferentes estágios da consciência.
No início, somos guiados apenas pelos instintos básicos — ligados ao naipe de Ouros e ao elemento Terra — onde tudo gira em torno das necessidades físicas e do desejo de possuir. À medida que crescemos, entramos no estágio das Espadas, associado ao pensamento e ao elemento Ar. Aqui, a mente se expande, passamos a questionar o mundo e buscamos entender nosso papel nele — é o despertar do “ser”.
Com a maturidade, adentramos o universo de Copas, onde sentimentos e empatia florescem. Já compreendemos o que temos e o que somos, e agora buscamos estar inteiros em nós mesmos, em harmonia com o que sentimos. É um estágio mais sensível e completo.
Por fim, alcançamos o naipe de Paus, símbolo de uma consciência ainda mais elevada. Nesse ponto, reconhecemos que tudo é transitório — posses, ideias, emoções. Aprendemos, então, o valor do ficar, não como permanência física, mas como presença existencial. Essa percepção, profunda e muitas vezes inalcançável em vida, exige uma entrega ao mistério do universo e uma transcendência do ego.
